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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Discoteca Básica - Chic (The Best of Chic)

Capa de The Best of Chic
Du-tu-ru-dum... não, não dá. Eu queria tentar descrever no papel uma linha de baixo do Chic, a coisa inacreditável que é, o que faz em você. Mas é inútil, só ouvindo. Vejamos, "Everybody Dance", por aproximação: uma jamanta acelerando, estacionada, para em seguida disparar em alta velocidade, passando por dentro de sua cabeça como um tiro, dar um cavalo-de-pau mais adiante e voltar com o mesmo impacto. E assim por diante. Como todo hit do Chic contido nesta coleção, a linha de baixo é um caso de polícia.
O baixo gigante, com vida própria, nasceu nos 60, graças a dois fatores. Primeiro: James Brown - diminuiu a porcentagem de quase tudo - metais, guitarras - para um mínimo necessário em favor do ritmo bruto do baixo e da bateria. Segundo: Motown - inventou a linha independente de baixo. Repare, antes dela todo baixo corria juntinho com a batida como suporte. Ouça músicas como "You Can't Hurry Love", das Supremes, e sinta aquelas quatro cordas grossas percorrendo um caminho todo delas.
O Chic juntou o ritmo realçado e mínimo de James Brown com a vida própria dos baixos da Motown e voilá, temos as melhores faixas rítmicas da história, sem discussão! É claro que alguns já haviam feito a junção antes, mas ninguém fez tão bem como o Chic. Afinal, além do dono do baixo, Bernard Edwards, dois itens fechavam um trio que nem Deus de bom humor teria concebido melhor: a guitarra precisa de Nile Rodgers - que, junto com Edwards, dividia as composições - e a máquina de bater baquetas Tony Thompson. Os esplêndidos vocais, teclados e violinos eram a cobertura e as cerejas perfeitas para a massa sublime.
Os três formaram a banda em 77. Edwards e Rodgers conheceram-se numa agência dos correios de Nova York e formaram a Big Apple Band, com Thompson, ex-Labelle. Inicialmente, incursionaram por um sólido Hard Rock bem ritmado. Rodgers, previamente, havia participado de bandas que iam do Folk ao Punk (!).
A Big Apple Band logo virou Chic, graças ao bom gosto e a um homônimo já existente. Norma Jean Wright - depois substituída por Luci Martin - e Alfa Anderson entraram para os vocais. O som do Chic era Disco - o que toda gravadora procurava no momento -, mas tinha um peso e uma densidade que o gênero nunca havia experimentado. Além de James Brown, havia aqui uma evidente influência da fase roqueira. Por isso, gravadora atrás de gravadora rejeitou sua demo, até que a Atlantic resolveu arriscar. Palpite certo. O single de estréia, "Dance, Dance, Dance", lançado em 77, foi um sucesso e de cara os estabeleceu como hitmakers.
Seguiram-se os megassucessos mundiais "Le Freak", "Everybody Dance", "Good Times", "I Want Your Love", "Chic Cheer" e "My Feet Keep Dancing", todas nesta coleção. É música para trançar suas pernas e induzi-lo a um transe como um rinoceronte hipnotizando alguém durante um terremoto.
A influência é patente em todo o Pop dos 80 em diante: Dance Music é a conexão mais óbvia, mas há ainda o Funk-Pop inglês de bandas do início dos 80 (ABC, Spandau Ballet, Duran Duran), as inúmeras produções do próprio Nile Rodgers (Sister Sledge, Diana Ross, David Bowie, Madonna) e - por que não? - roqueiros como Living Colour. Além disso, considerando o gênero Disco, o Chic é o único da área a angariar veneração de todo mundo no Pop, de Robert Plant aos B-52's. Agora, pode se entregar.

Texto de Camilo Rocha

Publicado na Revista Bizz, Edição # 73 (Agosto de 1991)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Discoteca Básica - House Remix Internacional

Uma das melhores coletâneas lançadas no Brasil, House Remix Internacional fez a festa dos dj’s amadores no fim dos anos 80 e comecinho dos anos 90, veja abaixo a resenha feita no Autobahn, site especializado em Dance Music.
House remix, apesar do título explicar o conteúdo, esse álbum fez bastante para a galeria "Coletâneas". Basta lembrar que a vida de DJ não era nada fácil: sem internet, MP3 e todas as facilidades de divulgação que temos hoje, apenas quem pilotava pickups em casas noturnas muito badaladas tinha acesso à versões 12" dos hits do momento. A outra alternativa, um pouco mais dolorosa, era ir até lojas de importados nas galerias de São Paulo e comprar a peso de ouro cada novo single. Se o você quer ser era DJ, então o jeito era mesmo se contentar com uma gravação da rádio. Hard times : )
Nessa época as rádios estavam quase à beira de um ataque de nervos, tamanha a ansiedade sobre qual seria a nova "onda" e por pouco o Brasil não embarcou na Newbeat que para variar já chegava atrasada. Eis que atropelando tudo e com uma estrutura pra lá de sedimentada no exterior, chega por terras Brasilis a House Music. Esse álbum foi mais do que tocado, e podemos dizer que uma boa parte de qualquer festa sempre estava a salvo se o DJ tivesse esse disco na ponta da agulha. Vamos às pérolas:
Kon Kan – I Beg Your Pardon
O nome dessa banda é bem curioso, vem de CAN CON (Canadian Content) uma lei que obriga às rádios canadenses a tocarem no mínimo 30% de música nacional. O duo Barry Harris e Kevin Wynne não durou muito, no começo dos anos 90 eles tomaram rumos diferentes e o único que continuou a dar seus pulinhos musicais foi Harris que chegou a gravar até um álbum solo. Hit de pista até hoje, é mais uma naquele esquema: não há quem não tenha dançado, cantado ou no mínimo escutado.
Depeche Mode - Strange Love

Single arrasador, em um remix pra lá de dançante. Escancarou de vez as portas para o Depeche no Brasil que já possuía uma considerável legião de fãs. Apesar do Depeche não ser uma banda de "House" no sentido mais "Warehouse"* da palavra, essa música estourou no momento certo e quem ouvia nas rádios não fazia muita questão de diferenciar estilos.
* Warehouse foi uma casa noturna de Illinois/Chicago que deu origem ao termo "House".
Erasure – A Little Respect

Para os desavisados, a dupla Vince Clark e Andy Bell já estavam no seu terceiro álbum quando esta música estourou nas rádios. Com um pouquinho a mais de história, vale lembrar que Vince Clark foi fundador do Depeche Mode (também presente na coletãnea) e fazia par com Alison Moyet no Yazoo. A Little Respect ficou semanas no top das rádios e quem tinha essa versão 12" literalmente fazia a festa.
Noel - Like a Child

Hit dos hits da "era" House.
Mais tarde inserido num movimento chamado "freestyle", Noel era obrigatório em qualquer festa house, e era bem comum ouvir ao menos 3 hits na mesma noite. Apesar de Silent Morning ter feito sucesso primeiro, Like a Child aproveitou o vácuo do sucesso anterior e não deixou a bola quicar no chão, manteve Noel nas programações das rádios por um looooongo tempo.
Pajama Party - Yo no Se
Com um nome sugestivo destes era de se esperar que as 3 meninas do Pajama Party fossem fazer um bom sucesso por aqui. House music de primeira com batida perfeita para fazer qualquer mixagem. Vale cada minuto dessa versão 12".
Ten City: - That's The Way Love Is
A menos conhecida da coletânea, mas no fiel estilo House Music.
Depois desse álbum, uma centena de outros vieram , mas no estilo 12" vale lembrar que esse foi pioneiro por reunir de uma só vez os melhores hits das pistas nessas versões exclusivas, e o melhor de tudo, acessível aos mortais em qualquer loja de discos. Dê uma fuçada na sua coleção de vinis, e se encontrar este por lá, pode guardar com carinho que este disco fez história.
Fonte: Autobahn

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Discoteca Básica - Saturday Night Fever

Certos discos capturam o espírito de uma época e de uma mudança social. Em 1977, isso aconteceu com a trilha de Saturday Night Fever (aqui no Brasil, Os Embalos De Sábado À Noite). O filme estrelado por John Travolta retratava o universo dos jovens nova-iorquinos do Brooklyn que viviam vidas banais, mas tinham seu momento de glória nas pistas das discotecas.
A genêse de Saturday Night Fever  foi um artigo escrito pelo crítico Nick Cohn chamado "Os Ritos Tribais Do Novo Sábado À Noite". Publicado em junho de 1976 na revista New York, ele acabou ganhando as telas de cinema pelas mãos do diretor John Badham. O produtor Robert Stigwood (ex-empresário do power trio Cream e responsável pelas óperas-rock Evita e Jesus Cristo Superstar) sentiu que aquilo era uma mina de ouro e chamou os Bee Gees para compor a trilha sonora para o filme.
Barry, Robin e Maurice Gibb já estavam experimentando com sucesso ritmos dançantes e não foi difícil para eles entrar no clima. A primeira música criada foi "Stayin’ Alive", um dos grandes hinos dos anos 70. Os críticos da nostalgia disco não conseguem negar a força da cena inicial do filme, em que John Travolta - vivendo Tony Manero, o personagem principal da história - trota pelas ruas de Nova York ao som dessa grande canção. Depois, os irmãos Gibb escreveram a bela "How Deep Is You Love’’, balada obrigatória para o momento romântico do filme. Outra canção mais climática era "If I Can’t Have You’’, que eles fizeram especialmente para sua protegida, a cantora Yvonne Elliman (ela também trabalhou em Jesus Cristo Superstar, no papel de Maria Madalena).
Os Embalos De Sábado À Noite deveria se chamar apenas Night Fever, mas Stigwood achou que muita gente poderia pensar que se tratava de uma produção pornô.  A música "Night Fever’’ aparece num dos momentos cruciais do filme e retrata a ferveção que rolava nas pistas de dança. "More Than A Woman’’, que segue a linha sensual de "Night Fever’’, surge em duas versões: uma com os próprios Bee Gees e a outra com o grupo soul Tavares.
Os mais antenados estranharam a inclusão de "You Should Be Dancing’’, canção que os Bee Gees tinham lançado em 1976 no álbum Children Of The World. Ela só entrou por insistência de John Travolta. O ator tinha ensaiado a música para se preparar para o filme e não queria rebolar ao som de outra canção. "Jive Talking’’ foi outro antigo hit dos Bee Gees que entrou no álbum, embora tenha ficado de fora do filme.
Além dos Bee Gees, o disco também trouxe outros importantes nomes do soul e da disco, como Kool & The Gang, M.F.S.B., K.C. & The Sunshine Band, Walther Murphy e The Tramps. Estes últimos cantam "Disco Inferno’’, que virou sinônimo da era disco - e é tão marcante quanto as criações dos irmãos Gibb. A trilha ainda incluía duas criações do maestro David Shire.
Os Embalos De Sábado À Noite está vivo. Recentemente, uma badalada rádio de Nova York comemorou os 20 anos da trilha, com a participação de todos os artistas presentes no disco.  Os Bee Gees estão sendo reconhecidos e a tão difamada disco music ganha homenagem até do U2. Em matéria de nostalgia, os Bee Bees carecas são tão ou mais dignos do que qualquer ex-punk em busca de alguns trocados.

Paulo Cavalcanti

Publicado na Revista BIZZ, # 153 de Abril de 1998.

É a terceira Trilha Sonora mais vendida de todos os tempos, só perdendo para The Bodyguard, a trilha do filme O Guarda-Costas (1992) e Dirty Dancing, o Ritmo Quente (1987).